segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Corvo

"O Corvo" é um poema de Edgar Allan Poe, provavelmente o mais famoso, e na minha opinião, um dos melhores poemas que já li. A atmosfera sombria, o personagem, a figura do corvo, e aquela frase tão marcante repetidas varias vezes, ("Nunca mais"), fizeram com que eu me apaixonasse por este poema. Infelizmente tenho que admitir que mesmo não dominando o inglês, percebo uma perca enorme com a tradução desta frase. O original é "Nevermore", que tem uma sonoridade bem diferente dá correspondente portuguesa.

Aprofundando-me no quesito tradução, encontrei e li as três principais, uma de Machado de Assis, a que li primeiro, outra de Fernando Pessoa e finalmente a de Milton Amado.

É incrível ver como elas podem ser tão diferentes. Na tradução de Machado de Assis a um certo desprezo pela estrutura original, porém com uma tradução técnica muito bem feita usando palavras adequadas, mesmo que não seguindo a estrutura de Poe.

Já Fernando Pessoa respeita e é fiel a estrutura do poema de Poe, porém erra grosseiramente ao suprimir, por exemplo, o nome de Lenora, nome que aparece varias vezes no poema original. O rigor na tradução não é tão bom como o visto na tradução de Machado e Milton Amado. Por exemplo:

Edgar Allan Poe
Ah, distinctly I remember it was in the bleak December
Machado de Assis
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Fernando Pessoa
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
Milton Amado
Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro

Este foi um exemplo, evidenciando a tradução de "bleak December", onde Pessoa colocou um simples "frio", enquanto Machado e Milton colocaram, respectivamente, glacial e gélido.

Deixei por ultimo a do menos conhecido, Milton Amado, que fez uma tradução excelente, suficientemente boa para um leigo como eu perceber as suas qualidades. Milton respeita a estrutura original do poema, e ao mesmo tempo, é fiel no uso das palavras conseguindo expressar muito bem o clima criado por Edgar Allan Poe.

Fazer uma tradução de um poema é realmente difícil, e este jornalista mineiro, conseguiu tal feito, e um ainda maior, conseguiu ser mais rigoroso do que dois grandes nomes da literatura portuguesa.

As traduções de "O Corvo" de Edgar Allan Poe:
Machado de Assis

6 comentários:

hnrchcrnh disse...

A tradução é um ofício muito complexo... Cuidado com o que os primeiros olhares revelam.

Há um sem-fim de escolhas e decisões a serem feitas quando transpondo um texto de uma língua a outra; quando o texto é uma poesia, os caminhos só se multiplicam.

Que tipo de critério respeitar (estrutural, sonoro, linguístico), quanto se deve respeitar o texto original ou quanto se deve pensar no produto final como obra-em-si são algumas delas.

Não se deve esquecer que a base de tudo é a interpretação que se dá ao texto, caráter fundamentalmente individual do ofício do tradutor - pois que ninguém lê as mesmas coisas das mesmas palavras.

A isso, claro, somam-se variáveis como as do estilo pessoal e histórico de cada autor, etc. etc... As questões "técnicas" nem sempre geram as melhores opções.

E muito cuidado quando menospreza o estilo de Pessoa! Às vezes a maior proeza está no bom uso de palavras como um simples "frio", ao invés do esbanjar de vocábulos "poéticos" e afetados.

Tradução é sempre uma traição.
É desse paradoxo que devemos extrair o melhor trabalho possível - mas nunca o melhor de todos, o definitivo; outras épocas e outras mentes virão para reler e reinterpretar tudo isso que existe.

É um bom exercício, aliás, brincar de traduzir textos - tanto do estudo da língua quanto da prática de escrever.

Everton Paschoal disse...

Sim, traduções são bem complexas, é por isso, que quase sempre tento ler varias traduções, pelo menos dos poemas que mais gosto. Admito que não tenho nenhum preparo para avalia-las, a não ser por opiniões pessoais e idiossincrasias.

Como disse, meu inglês é ruim, mas mesmo assim, quis definir qual seria aquela que eu leria mais vezes, aquela que me atraia por motivos conscientes ou inconscientes. Por isso, já havia algum tempo li a versão de Pessoa.

Há versão de Pessoa, na minha opinião leiga, prima bastante a interpretação e a sonoridade do poema , acho que ele fez pensando em ser o mais claro, em trazer o melhor sentido possível, o que é ótimo, quando o li, percebi e senti varias sensações que não tinha sentido na versão machadiana.

"outras épocas e outras mentes", este frase se adere muito bem aos tradutores. Machado e Pessoa, eram escritores fabulosos, sem duvida nenhuma, mas eram muito diferentes, um exemplo dos mais óbvios Pessoa era português, Machado brasileiro. Um outra fato importante é que Pessoa foi educado na África do Sul, então dominava o inglês muito bem e Machado, todos sabem não teve esta mesma oportunidade, foi em grande parte autodidata.

Agora já não adianta eu dizer que gostei (motivo pessoal) do estilo de Pessoa, ainda mais quando eu li a versão de Milton Amado, que me despertou uma espécie de contentamento por motivos bem idiossincráticos, eu tenho o péssimo costume de me apegar a algumas palavras que poderiam ser substituídas ou descartadas. Por exemplo a palavra "umbrais" que aparece muito bem colocada na versão de Pessoa, mas não aparece na versão de Machado. Também teve a palavra citada na texto "Lenora" que não aparece na versão de Pessoa (acho que este foi um dos motivos que mais me descontentou na versão de Pessoa, como você pode ver, o motivo não é dos melhores, na verdade é bem torpe, julgar uma tradução por isto).

Por esses motivos pessoais acabei preferindo a versão de Milton Amado, por ser uma espécie de junção do que as duas outras traduções tinham de melhor.

Peço desculpas por escrever um post e comentário tão superficial e parcial, eu pensei em colocar no final do post uma frase que mostrasse que a minha opinião era pessoal. Também pensei em colocar uma pergunta que mostraria que nada é definitivo que não há e que nunca existira uma tradução melhor, só uma tradução favorita, mas acabou ficando só na vontade, o máximo que fiz foi colocar os links para que as pessoas pudessem tomar a decisão por si mesma.

OBS: Na verdade este poema de Poe é ótimo, independente da tradução, ele é muito bem construído e me fascinou já faz algum tempo. Acho que foi por isto que quis ver por mim mesmo qual era a melhor tradução, digo a minha tradução favorita.

hnrchcrnh disse...

Aí eu me rendo: claro, parcialidade é tudo! =)

Kuki Bertolini disse...

Voce teve um trabalho imenso,Everton.Não é qualquer pessoa que tem uma sensibilidade tão grande para fazer uma comparação dessas.Minha admiração por seu talento e caráter é verdadeira.Grande abraço!!! =D

Everton Paschoal disse...

Obrigado, agora eu não me recordo muito bem da frase, mas lembro que você uma vez falou que tudo fica mais fácil quando se escreve algo que goste.

Acho que foi isto que aconteceu.

Abraço.

J. A. disse...

Apenas uma correção a respeito da informação de que Milton Amado respeitou a estrutura original do poema: ele a alterou, na verdade (de forma quase imperceptível numa primeira olhada).

Tomemos o primeiro verso do poema em Inglês, analisando-o no quesito métrico (os hífens servirão como separadores entre uma sílaba métrica e outra):

On-ce u-pon - a - mid-night - DREA-ry (8 sílabas, tônica na 7ª)
...while - I - pon-dered - weak - and - WEA-ry (8 sílabas, tônica na 7ª)

A tradição poética em Inglês e em algumas outras línguas é diferente da portuguesa, e não se importa com a sílaba tônica final, e sim com a verdadeiramente última sílaba, que, neste caso, é "ry". Portanto, este verso, em Inglês (e apenas em Inglês) é composto de dois versos octossílabos, e não de dois heptassílabos, como a sua sonoridade nos levaria a primariamente crer.

Milton Amado traduziu o poema levando em conta que ele era composto de versos octossílabos duplos, mas utilizou a noção portuguesa para isso, o que resultou no seguinte:

Foi - u-ma - vez: - eu - re - fle - TI-a, (9 sílabas, tônica na 8ª)
...à - me-ia-noi-te er-ma e - som - BRI-a, (9 sílabas, tônica na 8ª)

Isto, claramente, foi uma interpretação errada do "verso octossilábico" em Inglês, que é muito diferente da tradição poética de nossa língua. Milton Amado usou, de fato, o verso octossilábico, mas utilizou nossa tradição para tal, o que acabou por estender longamente o poema, dando-lhe exatamente 183 sílabas [eu contei] a mais do que a sua versão original.

Já a versão de Fernando Pessoa obedeceu criteriosamente à métrica exata de Poe, e o autor português percebeu que utilizar o octossílabo de nossa tradição seria inapropriado, então ele resolveu usar o heptassílabo, fazendo da sequinte maneira:

Nu-ma - me-ia-noi-te a-GRES-te, (8 sílabas, tônica na 7ª)
...quan-do eu - li-a, - len-to e - TRIS-te (8 sílabas, tônica na 7ª)

A estrutura métrica de Pessoa ficou idêntica à do poema original, pois ele não se importou com as denominações acadêmicas e utilizou uma denominação diferente de nossa própria tradição que criou exatamente o mesmo efeito do octossílabo inglês.

Enfim, creio que me alonguei demais quanto à explicação, mas é que costumo ver muito as pessoas dizendo que a tradução de Milton Amado ficou estruturalmente correta (a despeito da perda da rima "ais" nos 4ºs e 5ºs versos de cada estrofe, embora isso seja perdoável) quando ela não o é, se analisada mais a fundo, como aqui o fiz, e não acho certo aclamar o autor por um feito que ele não realizou.

Não quero tirar o crédito de Amado, de forma alguma, até porque a tradução dele é minha favorita, por seu vocabulário simplesmente perfeito e sua tenebrosidade que, na minha opinião, conseguiu igualar-se à do "The Raven", mas apenas quis apontar a sua falha (assim como a falha de Pessoa foi ter, por infelicidade, omitido o nome de Lenora, o que também acho triste).

Sobre a tradução do Machado de Assis, já nem comento, porque ela destruiu a estrutura original completamente, e não acho isso algo muito louvável...

Se alguém teve folego para ler isto tudo, agradeço a paciência ^^